15-10 | Série Revista Isto É – Intrigas, lobby e sabotagem

Jogo de interesses na Polcia Federal e na FAB coloca em risco projeto de aeronave responsvel pela vigilncia de fronteiras, que j consumiu R$ 80 milhes

Claudio Dantas Sequeira

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H duas semanas, ISTO trouxe tona um episdio inconveniente para a cpula da Polcia Federal. Seu avio no tripulado de ltima gerao, comprado h dois anos para vigiar as fronteiras, sofreu uma avaria e corre o risco de no voar mais. A partir da o rgo passou a divulgar a informao, at ento mantida em sigilo, de que a aeronave estaria parada pela simples ausncia de um contrato de manuteno, que no fora previsto no pacote original firmado pela gesto anterior. Admitir o erro foi a sada para no expor as fragilidades que cercam o programa, no qual j foram investidos R$ 80 milhes. Arquivos confidenciais e relatos obtidos pela reportagem indicam que o projeto de veculo areo no tripulado (Vant) corre riscos por causa da suposta conivncia da atual cpula da PF com interesses do comando da Aeronutica, que estaria ligado ao lobby de uma fornecedora de Vants concorrente.

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Para entender esse imbrglio preciso voltar a 2008, quando o governo lanou a Estratgia Nacional de Defesa. O plano previa o uso de Vants na vigilncia das fronteiras da Amaznia e no combate ao narcotrfico. Criado um grupo de trabalho para estudar a aquisio do equipamento, a PF selecionou modelos de trs pases diferentes, EUA, Alemanha e Israel. Optou-se pela compra do Heron I, considerado o mais avanado dos Vants, da empresa IAI (Israel Aerospace Industry).

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FAVORECIMENTO
Documentos revelam que a empresa que produziu o avio
adquirido pela FAB tinha como diretor um coronel que
seria concunhado do comandante da Aeronutica

De outro lado, a FAB preferiu lanar um processo de compra independente e optou por uma aeronave mais barata, o Hermes-450, adquirido da Aeroeletrnica (AEL), uma subsidiria da tambm israelense Elbit. nesse ponto que os problemas comeam a surgir. Durante todo o processo, o comando da Aeronutica trabalhou para minar a compra da PF. Disseminou que o Vant no poderia voar sem uma doutrina de emprego e autorizao expressa da FAB. O comandante da Aeronutica, Juniti Saito, foi colocado sob suspeita de ter interesses pessoais no caso. A PF produziu um relatrio de inteligncia, enviado ao Palcio do Planalto, acusando Saito de beneficiar escancaradamente a AEL/Elbit em contratos com a Fora Area. O documento confidencial cita a contratao do coronel reformado Luiz Guimares Pond, concunhado de Saito, para o cargo de diretor de relaes institucionais da empresa. Questionado por ISTO, o brigadeiro respondeu que a aquisio se deu por critrios tcnicos e que no houve qualquer interferncia de cunho pessoal.

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At 2011, a FAB e a Polcia Federal estavam em lados opostos na briga dos Vants. Mas a atual cpula da PF passou a trabalhar contra o seu prprio projeto. Era tudo o que a FAB queria. Essa mudana de postura ocorreu em razo de uma briga de poder dentro da prpria polcia. Integrantes da PF que, durante o governo passado, tinham interesse em assumir o controle do programa do Vant, mas no conseguiram, passaram a boicot-lo quando assumiram o poder a partir da nomeao do atual diretor-geral da PF, Leandro Daiello. No ano passado, esse grupo fez uma denncia sobre supostas irregularidades no projeto ao TCU. Um dos autores da denncia com e-mails e ofcios internos obtidos por ISTO o ex-comandante da Coordenao de Aviao Operacional da PF coronel Rubens Maleiner. Antes mesmo da concluso da anlise do tribunal, esse grupo, que hoje ascendeu ao poder na PF, resolveu parar todos os processos de aquisio do programa Vant.

As consequncias comeam a ser conhecidas agora. Deixaram de ser comprados os pacotes de manuteno e o link de satlite, sem o qual a aeronave no pode ser utilizada em sua capacidade mxima. Tambm foi suspensa a compra de cinco galpes em So Miguel do Iguau. Sem as instalaes, o Vant, que estava num hangar antigo, precisou ser transferido depois que uma tempestade danificou a estrutura do local. Sem alternativa, agentes da PF tentaram colocar o avio num galpo menor. Em junho, providenciou-se uma gambiarra, com trilhos e cabos de ao. O improviso no deu certo. A ponta da asa direita da aeronave bateu no porto, o que causou avarias na fuselagem e numa lanterna. Desde ento, por recomendao da IAI, o avio no pode decolar at que se faa uma avaliao de dano estrutural na asa. ISTO questionou o ministro da Justia, Jos Eduardo Cardozo, sobre as denncias e o futuro do programa, mas ele se recusou a responder.

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